sobre Mari Quarentei - Brasil

 

Nascida em São Paulo-SP, terapeuta ocupacional, poeta e artista visual, Mari teve contato com desenho artístico, pintura e história da arte durante a infância com sua mãe. Em seguida estuda artes de modo eventual em ateliês

nos anos 70 em SP no IADÊ/SP e com  Silvio Divoreck;  com Manoel Marques  e Olavo Puppo em Botucatu-SP anos 80/90 e com Gustavot Diaz no Mímesis em Curitiba 2013/14.

A sua produção como artista visual  formaliza-se em 2010, com a pesquisa“Dar a palavra...à palavra”  desenvolvida na pós-graduação em Poéticas Visuais na Escola de Música e Belas Artes do Paraná EMBAP/UNESPAR.

A inquietação pela presença da palavra ou pela palavra-presença e o interesse por restituir-lhes algum silêncio, poder de luta...força de vivo surgem sempre  em ações mestiças: inscrição fala, escritapintura, palavraimagem,  movimentos para o  des-silenciamento das palavras-forças que rondam, atravessam... ocupam  o corpo/ a vida. E são, também, efeitos do prazer de dar-se à ação e ao gesto.

Essas AFECTOGRAFIAS, como Mari gosta de chamar seus trabalhos, podem ser  compreendidas como produções de paisagens próprias, no sentido trazido pelo líder indígena brasileiro Ailton Krenak em Dias de Estudo na 32a. bienal de São Paulo.Atualmente vive em Botucatu/SP e trabalha em seu ateliê CoR_PopaLaVRA.

 

...sob paisagens próprias

AFECTOGRAFIAS


Não é porque não se tem um muro que não se pode fazer um mural. Os trabalhos de Quarentei urgem. Insurgências pedindo passagem, querendo ganhar lugar...territórios, abrigam gestos de continuidade: narrar histórias, inscrever ensinamentos, reunir inquietudes. Inscrições em cavernas, afrescos, muro das lamentações, muralismo mexicano a cada tempo as superfícies das moradas servindo de suporte para pinturas, poesias, protestos. E, os trabalhos de Mari Quarentei atualizam tais gesto em nossos tempos. Paredes internas que suportam papéis... insuportáveis papéis, indignos da pintura de excelência. No entanto é  que  parece tornar algo sustentável:  um muro e poder transportá-lo, substituí-lo, expô-lo. O papel esse suporte que não dura. Indigno. Frágil. Rasga, molha, mofa, amassa, variações de avarias. Nas pinturas dessa artista, o papel forra a parede e oferece-se camada para ser rasurada. Papel emendado para expandir as superfícies de inscrições profundas e não profundas. Operações de todo um corpo. Cores vibram. Palavras chocam-se. Alguma selvageria encontra lugar.  O que não cabe contido, precisa dessa ampliação. Não se aquieta. Estão ali as forças de um corpo, a memória e o agora, encarnação viva do intensivo que a faz pintar. Operação que vibra com a do grafite que ocupa a cidade ou do pixo que denuncia algo de bruto no vital. E embora fina, a camada de um papel qualquer, suporta e resiste. Quarentei trabalha e retrabalha ao longo do tempo, por vezes pode durar anos, mesmo que o gesto dure segundos. Muro próprio...paisagem própria que dá algum contorno, anteparo para o fora e que parece sustentar uma permeabilidade movente e sempre inacabada... da grafia dos afetos.

por  Gisele Asanumaartista e pesquisadora em curadoria

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